A história desta mulher se confunde com a história de outras milhões de mulheres desse país.
Filha pobre, nascida na Bahia, em solo paradisíaco, no Morro de São Paulo.
Bonita casou-se e foi morar em uma pequena fazenda. A pobreza sempre retirou o olhar da beleza do lugar. Vivia da venda de cocos e mariscos recolhidos nos manguezais.
Cozinheira nativa, não demorou a fazer fama e atrair fregueses. Vida dura. Marido alcoólatra e violento. Filhos pequenos. Cozinhou mais. Ganhou mais e construiu uma cabana. Sozinha. Sempre sozinha. Final da década de70, turistas estrangeiros que chegavam sem parar, atraído pela beleza e pelos cheiros do lugar. Enquanto isso, a mulher recolhia pedaços de madeira que a natureza, generosa, lhe dava. Pedaços de arvores, da mata que ninguém prestava atenção. E deles, suas mãos construíam pisos, paredes, mesas, bancos e muito mais...
E sempre sozinha, cozinhando sem parar, acabou construindo o mais belo restaurante da ilha. Pra quem nunca viu, difícil descrever. É uma construção monumental, erguida com braços de operário e olhar de artista, onde as sinuosas curvas da madeira bruta se entrelaçam com graça e leveza, num balé de formas de Niemeyer jamais imaginou. A escada tem braços, dos galhos que se perderam ao vento. O telhado é uma renda de sapé, que termina em tranças, com os cabelos das mulheres nativas. A casa é, na verdade,uma escultura surrealista. Imensa, fica quase suspensa na imensidão da areia branca da 4ª Praia, com as bordas amarradas por grossas cordas, de velhos barcos e se prende ao chão sob o peso da imensa âncora amarrada na entrada. Ladeada pelo mar cor de esmeralda, transparente. E a brisa morna tempera os cheiros apaixonantes da cozinha que trabalha com maestria os frutos da terra e do mar.
Mas a mulher não se dá conta da força e da magia do lugar. É uma mulher simples que não se apercebe como artista. Nas sua meses ouvem-se palavras do mundo inteiro, precedidos pela fama que esse espalha em paises longínquos que ela nem sabe que existem.
Há um quarto do século são recebidos nesta casa do mesmo jeito: com gentileza, respeito e simpatia. Seus clientes saem com uma sensação de respeito pelo lugar e pela mulher que o criou. Amim, também mulher, coube a honrosa tarefa de lhe prestar à justa e tardia homenagem, pois o lugar há de desaparecer lentamente, o morro de São Paulo está sendo invadido pelo turismo predatório, pelo comércio degradante e por vorazes interesses econômicos destruídos pela criminosa omissão do Poder Público local.
Infelizmente, todos sabem que histórias como estas se repetem, nesse exato momento, em muitos outros paraísos deste país tragicamente tão belo. Instalam-se grandes lojas e hotéis com grande poderio econômico que tem, um efeito devastador sobre a frágil economia local. E o povo ignorante e simples ainda não se deu conta que um dia não existirá futuro. Humildes submetem-se a topo tipo de exploração: o desrespeito vai do turismo sexual ao trabalho semi - escravo. Instalam-se hotéis luxuosos em praias cada vez mais sujas e exclusivas. Mas o povo não tem escola, nem hospitais. Ao contrario, cada vez mais pobres e ignorantes, são colocados à margem destas transformações.
É também assim com a mulher chamada Maria Ângela e seu restaurante maravilhoso que incomoda os interesses do grande hotel que hoje é seu vizinho. E eu conto a historia para que ela não morra e se perca na memória do povo da ilha, de todos nos. Interesses econômicos não podem devastar a vida e a historia do povo nativo da ilha. É preciso dar uma chance a essa mulher valente e corajosa. Mas do que isto é preciso protegê-la em nome de muitas outras mulheres da Bahia e do Brasil a fora, mulheres maravilhosas que sobrevivendo às duras condições de violência, criam seus filhos, fazem arte e história , construindo um futuro melhor para todos nós.